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Investimentos

Por que o Tesouro Selic pode ficar negativo no dia que a Selic sobe?

Entenda a mecânica da marcação a mercado e por que ver vermelho no extrato do Tesouro Direto após uma alta de juros não significa que você perdeu dinheiro de verdade.

Carolina Souza Torres
Carolina Souza TorresConsultora de Endividamento e Especialista em Orçamento
Imagem editorial ilustrando Por que o Tesouro Selic pode ficar negativo no dia que a Selic sobe?

O susto é quase ritualístico. O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia uma nova alta na taxa básica de juros, a Selic. Na teoria, isso é ótimo para quem tem dinheiro aplicado no título mais básico do governo, o Tesouro Selic (LFT). A lógica imediata do investidor é: "juro maior, rendimento maior". No entanto, no dia seguinte, ao abrir o aplicativo da sua corretora ou o site do Tesouro Direto, você se depara com um sinal de menos na coluna de rentabilidade do dia ou na valorização do título. Como é possível que o ativo considerado mais seguro do país perca dinheiro exatamente no momento em que a taxa de referência sobe?

A resposta técnica reside em um conceito contábil chamado marcação a mercado. Embora pareça um contrassenso, entender essa mecânica é crucial para não tomar a decisão errada — como resgatar o investimento no pânico — e realizar prejuízos que existem apenas no papel.

Renda Fixa não tem preço fixo

O primeiro erro de interpretação vem do nome da classe de ativos. Chamamos de "Renda Fixa" porque sabemos quanto vamos receber no vencimento (se carregarmos o título até o fim), mas isso não significa que o preço desse título fique travado até lá. O Tesouro Selic é um título pós-fixado que paga a variação da Selic acumulada. Quando o mercado abre a cada dia, ele precisa precificar quanto vale esse título naquele exato momento, caso alguém queira vendê-lo para outra pessoa.

Se você comprar o título e mantiver até o vencimento, o Tesouro Nacional garante o pagamento do valor de face mais a taxa Selic acumulada. O problema surge quando você olha o extrato antes da hora. O que você vê ali não é o valor final, é o preço de liquidação daquele dia. Para chegar a esse número, o mercado utiliza o mark-to-market (marcação a mercado), que atualiza o preço do título baseado nas taxas de juros praticadas hoje. É puramente matemática financeira, nada de "o governo quebrou".

Como funciona a marcação a mercado no curto prazo

A marcação a mercado serve para espelhar a realidade econômica atual. Imagine que você tem um título antigo que paga "Selic menos 0,10%". De repente, o Copom sobe a Selic e o Tesouro passa a emitir novos títulos do mesmo tipo, porém com uma remuneração mais atrativa, digamos, "Selic menos 0,05%".

O novo título é mais vantajoso para quem está comprando agora. Se você tentar vender o seu título "velho" no mercado secundário, ninguém vai querer pagar o preço cheio por ele, pois o novo título paga mais. Para que o seu título antigo seja vendido, ele precisa sofrer um deságio — uma redução no preço unitário. É esse deságio que aparece como prejuízo no seu extrato. O preço cai exatamente o suficiente para igualar o rendimento do seu título ao dos títulos novos que estão sendo emitidos.

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Isso acontece em tempo real. No dia da alta da Selic, a expectativa de mercado já se precifica, e o preço do seu título cai para se ajustar à nova curva de juros. É importante notar que isso é revertido com o tempo. À medida que os dias passam, os juros acumulados do seu título crescem (o chamado "juro sobre juro") e compensam essa queda de preço. É aí que entra a diferença entre rentabilidade no dia e rentabilidade acumulada.

O paradoxo da alta da taxa de juros

Aqui está o ponto técnico que confunde muita gente em 2026. Quando a Selic sobe, o preço do Tesouro Selic caí imediatamente, mas a rentabilidade futura sobe. O prejuízo no dia seguinte à alta é um ajuste de preço, não uma perda de rendimento. O seu título continua pagando a Selic diariamente. Na verdade, ele passa a render um pouco mais a partir daquele ponto, pois a meta da taxa aumentou.

O investidor que se assusta e vende o título nessa hora realiza o prejuízo. Ele transforma um movimento de preços em uma perda financeira real, saindo de um investimento que, tecnicamente, acabou de ficar mais rentável. Esse tipo de movimentação impulsiva é um erro clássico de gestão de carteira, geralmente motivado pela falta de distinção entre "preço do ativo" e "rentabilidade do ativo".

Quem acompanha sinais de que sua corretora de ações tem deslize alto sabe que a transparência na cobrança de taxas é vital, mas no Tesouro Direto, o inimigo muitas vezes é a própria falta de leitura do extrato com calma. Não olhe apenas a coluna "Valor Atualizado", olhe também a "Rentabilidade no Ano".

Exemplo prático: o cálculo que assusta

Vamos colocar números nisso para ficar cristalino. Digamos que você possui R$ 10.000,00 investidos em um Tesouro Selic 2029. Em uma reunião do Copom, a Selic sobe de 10,50% para 10,75% ao ano. No dia seguinte, o mercado reprecifica todos os títulos. O seu título, emitido em um cenário de juro menor, sofre um deságio de, por exemplo, 0,15% no seu preço unitário.

No seu extrato, você pode ver algo como:

  • Valor de compra: R$ 10.000,00
  • Valor de mercado (hoje): R$ 9.980,00
  • Variação no dia: -R$ 20,00

Parece que você perdeu dinheiro. No entanto, a partir de amanhã, esse título de R$ 9.980,00 passará a render a taxa de 10,75% ao ano em vez de 10,50%. Em poucos dias, os juros novos vão "engordar" o valor do título de volta para os R$ 10.000,00 e ultrapassá-lo. O prejuízo de R$ 20,00 foi apenas o preço para acessar um rendimento maior. Se você não vender, essa oscilação diária torna-se irrelevante no longo prazo.

Diferente de quem vendeu o carro para comprar CDBs e precisa de liquidez imediata, o investidor do Tesouro Selic deveria ter como horizonte o médio ou longo prazo. A volatilidade diária é o "ruído" do funcionamento do mercado.

Quando esse prejuízo se torna real?

O único momento em que você realmente perde dinheiro com a marcação a mercado é no dia do resgate antecipado. Se você precisa do valor total e o mercado está passando por um momento de ajuste de preços (seja por alta da Selic ou por mudanças na percepção de risco), você vende o título pelo valor de mercado daquele dia, que pode estar abaixo do que você pagou.

Aqui entra o trade-off honesto que preciso te fazer: Tesouro Selic é excelente para reserva de emergência e liquidez, mas se o seu prazo for de menos de 6 meses, a marcação a mercado pode te pegar em um dia ruim. Para prazos muito curtos, a poupança (apesar de pagar menos) ou CDBs com liquidez diária de bancos grandes podem sofrer menos com essa oscilação visual, embora também tenham seus mecanismos de precificação.

Para quem está construindo estratégias de longo prazo, como uma escada de Tesouro IPCA, essas oscilações são irrelevantes. O que importa é o fluxo de pagamentos no vencimento.

A próxima vez que abrir o aplicativo e ver um número vermelho logo após uma notícia de alta de juros, respire fundo. Lembre-se que o preço caiu para que o seu rendimento suba. É uma característica da mecânica, não um defeito do produto. Mantenha o foco na taxa acumulada e no objetivo final da sua reserva, ignorando o "solavanco" diário do preço de mercado. Quem entende essa dinâmica deixa de assustar e passa a usar essas flutuações a seu favor, compreendendo que, no longo prazo, a matemática sempre favorece quem aguenta a marcação.

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